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A sustentabilidade e o ESG só “modinha”?

Escutei esta frase em umas das aulas do MBA, falando que os termos são só modismo, mas tenho visto muita gente das mídias sociais tentando fazer o ESG uma trend, como foram várias outras dentro da administração. Para combater isso tenho lido, reunido e cruzado artigos, pesquisas e sinais de mercado sobre sustentabilidade e ESG. E quanto mais o mundo entra em guerra, fragmentação geopolítica, disputa por energia e polarização ideológica, mais me incomoda a pressa de alguns em decretar a morte do tema. O Fórum Econômico Mundial descreve 2026 como uma “era de competição”, marcada por guerras, armas econômicas e fragmentação. No mesmo movimento, relatórios jurídicos e empresariais mostram um ambiente de backlash anti-ESG, com mandatos conflitantes, litígios e forte pressão política sobre empresas e investidores.

Só que o mundo real não está confirmando o enterro da sustentabilidade. Está mostrando exatamente o contrário.

Em 2025, as renováveis chegaram a 49,4% da capacidade global de eletricidade, após crescimento recorde puxado sobretudo pela energia solar. E há um detalhe revelador: no contexto da crise no Oriente Médio, a própria leitura associada aos dados da IRENA foi clara ao mostrar que a dependência de fósseis expõe países e economias a choques de segurança energética, enquanto sistemas com maior presença de renováveis ficam mais protegidos dessa volatilidade. Em outras palavras: em tempos de guerra, a transição energética deixa de ser só pauta ambiental e vira também pauta de resiliência estratégica.

No Brasil, esse debate também deixou de ser abstrato. Estudo da EY-Parthenon mostra que a adoção consistente de práticas ESG no agronegócio pode impulsionar o setor em 26,5%, ativar R$ 247 bilhões por ano na economia, gerar cerca de 2 milhões de empregos e adicionar R$ 112 bilhões anuais em arrecadação tributária. Não estamos falando de discurso fofo. Estamos falando de eficiência, renda, competitividade, empregos e escala econômica.

E há outro símbolo importante: Cubatão. Uma cidade historicamente associada à degradação ambiental agora avança para estruturar um programa de economia verde com potencial de geração de créditos de carbono e biodiversidade, atração de investimento privado e criação de novas fontes de receita. Isso é muito significativo. Mostra que sustentabilidade não é só proteção. É também reconversão econômica, inteligência territorial e reposicionamento de futuro.

Isso tudo conversa com algo que venho defendendo há anos: sustentabilidade é a forma como encaramos o mundo. É pensar no dia a dia sem afetar o nosso futuro e o futuro dos outros. Não tem a ver apenas com meio ambiente isoladamente, mas com perenidade, continuidade, pessoas, planeta e economia funcionando em equilíbrio. Também venho insistindo que, dentro das empresas, o tema só ganha força quando sai da propaganda e entra na gestão: alinhamento entre estratégia do negócio e estratégia socioambiental, diálogo com stakeholders, transparência, métricas e ação ao longo de toda a cadeia de valor.

A pesquisa acadêmica mais recente reforça esse movimento. Em artigo publicado pela Cambridge University Press em março de 2026, Frank Geels mostra que as transições sustentáveis estão começando a acelerar em inovações técnicas como energias renováveis e veículos elétricos. O autor aponta cinco mecanismos para essa aceleração: redução de custos, melhora de desempenho, mudança na orientação dos atores, mobilização de finanças e ampliação do apoio sociopolítico. E vai além: sugere que essas inovações técnicas podem funcionar como catalisadoras de mudanças sociais posteriores. Ou seja, a transição não está parada. Ela está ganhando tração, mesmo que de forma desigual.

Então vamos falar de forma bem direta: quem ainda diz que sustentabilidade é “moda” talvez esteja olhando para a sigla errada, para os oportunistas errados ou para o prazo errado.

Porque moda some quando o cenário piora. E o que estamos vendo é o contrário: quando o cenário piora, a sustentabilidade fica mais importante.

Mais importante para reduzir risco. Mais importante para garantir energia. Mais importante para acessar capital. Mais importante para defender reputação. Mais importante para inovar. Mais importante para sustentar cadeia produtiva. Mais importante para manter licença para operar. Mais importante para continuar competitivo.

Também é preciso separar as coisas com honestidade. ESG mal feito, burocrático, superficial ou performático merece crítica. Greenwashing merece crítica. Discurso vazio merece crítica. Relatório bonito sem mudança real merece crítica. Mas criticar a caricatura não elimina a relevância do tema. Só mostra que o mercado e a sociedade ficaram mais exigentes.

A própria GlobeScan, junto com a BSR, aponta que o business case da sustentabilidade continua forte, mesmo em um ambiente de incerteza econômica, instabilidade geopolítica e backlash ideológico. O valor continua vindo de eficiência operacional, resiliência de cadeia, mitigação de riscos, acesso a capital, atração de talentos e alinhamento com clientes e outros stakeholders. O desafio atual não é provar que sustentabilidade gera valor. O desafio é mostrar como esse valor é construído, integrado e comunicado.

E talvez seja exatamente aí que muita gente se perde. Porque durante muito tempo se vendeu ESG como etiqueta. Agora ele precisa ser defendido como estratégia. Durante muito tempo se falou em propósito. Agora é preciso falar também em retorno, risco, eficiência, segurança energética, produtividade, reputação, cadeia e competitividade.

Durante muito tempo bastava dizer que era importante. Agora é preciso provar, ter dados, evidências, comprovações. Eu, sinceramente, acho isso ótimo. Porque separa quem está só surfando tendência de quem realmente entendeu o que está em jogo.

Como argumentar contra quem diz que sustentabilidade é só moda:

  1. Moda não entrega R$ 247 bilhões ao ano para a economia. Quando um estudo robusto mostra potencial de geração de valor, emprego e arrecadação, estamos no campo da estratégia econômica, não da estética corporativa.
  2. Moda não melhora segurança energética em cenário de guerra. A expansão das renováveis em 2025 e a vulnerabilidade dos fósseis diante de choques geopolíticos mostram que a transição energética é também questão de segurança e autonomia.
  3. Moda não reorganiza cidades, cadeias e territórios. Quando Cubatão transforma recuperação ambiental em ativo econômico e atração de investimento, sustentabilidade vira política de desenvolvimento.
  4. Moda não mobiliza finanças, tecnologia e apoio sociopolítico ao mesmo tempo. A literatura recente mostra que as transições sustentáveis estão acelerando justamente porque passaram a operar com mecanismos concretos de escala, custo, desempenho e financiamento.
  5. Moda não continua relevante quando o contexto piora. Se mesmo com backlash, disputa política, guerra e fragmentação regulatória o tema continua no centro das decisões, é porque ele responde a problemas reais.
  6. Moda vive de narrativa. Sustentabilidade vive de integração. Quando ela entra em produto, processo, cadeia, governança, energia, água, pessoas, risco e inovação, ela deixa de ser acessório e vira modelo de gestão.

Não precisamos de mais slogans verdes. Precisamos de empresas, governos, investidores, universidades e cidadãos capazes de entender que sustentabilidade não é decoração de tempos tranquilos.

É infraestrutura de sobrevivência em tempos difíceis. E é justamente por isso que ela segue em frente. Avante com o Desenvolvimento Sustentável.

REFERÊNCIAS PARA O ARTIGO:

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