Atualizei este artigo da Folha de S.Paulo , com as mais fontes e dados atuais: https://www1.folha.uol.com.br/empreendedorsocial/2020/11/produtos-fenix-o-renascimento-e-a-economia-circular.shtml.
A imagem da Fênix, a ave mitológica que renasce das próprias cinzas, sempre foi usada como símbolo de renovação e recomeço, mas, diante da crise ambiental contemporânea, essa metáfora ganha um novo significado: não se trata mais apenas de renascer, mas de evitar que produtos e materiais cheguem a virar cinzas ou fiquem poluindo algum lugar até se decompor e virar cinzas. A economia global ainda opera majoritariamente sob um modelo linear — extrair, produzir, consumir e descartar — que se mostra cada vez mais insustentável diante da pressão sobre os recursos naturais. Segundo o relatório Circularity Gap Report 2023, da Ellen MacArthur Foundation, a economia mundial é apenas 7,2% circular, indicando que menos de um décimo dos materiais utilizados retorna ao ciclo produtivo, enquanto o restante se perde como resíduo. Esse dado revela uma contradição evidente entre o avanço do discurso da sustentabilidade e a realidade prática dos sistemas produtivos. E que atualmente tenho levado nas minhas aulas de graduação e pós graduação.
Ao mesmo tempo, o Global Resources Outlook 2019, publicado pelo Nações Unidas, mostra que a extração de recursos naturais mais do que triplicou desde 1970, passando de cerca de 27 bilhões de toneladas para mais de 90 bilhões de toneladas por ano, com projeções de crescimento contínuo até 2060 caso não haja mudanças estruturais. Essa pressão crescente sobre o planeta evidencia que o modelo atual não apenas gera resíduos em escala massiva, mas também compromete a capacidade de regeneração dos ecossistemas. E atualmente, com as visitas na Cooperativa de catadores, no curso de pós graduação em beleza e nas disciplinas que tenho dado aula, o tema tem aparecido demais. Nesse contexto, a economia circular surge como uma proposta de ruptura, ao propor a eliminação do conceito de lixo por meio do design inteligente, da reutilização de materiais e da regeneração dos sistemas naturais.
O conceito não é novo, mas ganhou força nas últimas décadas com contribuições de autores como Walter Stahel, que já nos anos 1970 defendia uma economia baseada na extensão do ciclo de vida dos produtos, e William McDonough, que ao lado de Michael Braungart consolidou a ideia de que produtos devem ser concebidos desde o início para retornar a ciclos biológicos ou técnicos. Para McDonough, o problema central não está no consumo em si, mas no design inadequado dos produtos, que transforma materiais potencialmente valiosos em resíduos sem valor. Essa visão é reforçada pela própria Ellen MacArthur Foundation, que desde sua criação, em 2010, tem defendido a necessidade de dissociar crescimento econômico do consumo de recursos finitos.
Apesar do avanço conceitual e do aumento da pressão por práticas ESG, a adoção da economia circular ainda ocorre de forma desigual e, muitas vezes, superficial. No Brasil, a CNI – Confederação Nacional da Indústria apontou, em seu relatório sobre economia circular publicado em 2024, que mais de 60% das indústrias já adotam alguma prática relacionada ao tema, como reciclagem interna, reaproveitamento de materiais ou redução de desperdícios. No entanto, essas iniciativas ainda estão concentradas em melhorias operacionais e não representam, na maioria dos casos, uma transformação estrutural dos modelos de negócio. Ou seja, as empresas avançam na eficiência, mas ainda não incorporam plenamente a lógica circular em suas estratégias centrais.
Essa dificuldade de transição não está relacionada apenas à tecnologia, que já existe e evolui rapidamente, mas sobretudo a fatores sistêmicos. A economia circular depende de cadeias integradas, infraestrutura de coleta e triagem, logística reversa eficiente, incentivos econômicos e, principalmente, mudança de comportamento. Estudos sobre consumo consciente mostram que há um descompasso significativo entre o que as pessoas declaram e o que efetivamente fazem no cotidiano, especialmente no que diz respeito à separação e descarte de resíduos. Esse desalinhamento compromete a qualidade dos materiais que retornam ao sistema produtivo, muitas vezes contaminados ou inviáveis para reciclagem, o que limita a eficácia do modelo circular.
Além disso, a pressão por resultados financeiros de curto prazo ainda representa um obstáculo relevante. Como destaca Michael Porter, a vantagem competitiva sustentável só se consolida quando a sustentabilidade está integrada à estratégia do negócio e não tratada como uma ação periférica. Quando isso não ocorre, há o risco de que iniciativas de economia circular sejam reduzidas a estratégias de comunicação ou marketing, sem impacto real na estrutura produtiva. Esse fenômeno, frequentemente associado ao chamado greenwashing, enfraquece a credibilidade do tema e gera desconfiança por parte de consumidores e investidores.
Por outro lado, o potencial econômico da economia circular é significativo. Estudo da McKinsey & Company, divulgado em 2015 e amplamente citado em análises posteriores, estimou que a transição para modelos circulares pode gerar até US$ 4,5 trilhões em valor econômico global até 2030, considerando ganhos de eficiência, inovação e novos modelos de negócio. Esse potencial reforça que a economia circular não deve ser vista apenas como uma agenda ambiental, mas como uma oportunidade estratégica para empresas e países.
Ainda assim, o avanço em escala depende de uma mudança mais profunda na forma como produtos são concebidos, utilizados e descartados. A lógica da Fênix, nesse novo contexto, precisa ser reinterpretada. Não se trata apenas de transformar resíduos em novos produtos, mas de criar sistemas em que os materiais nunca deixem de circular, mantendo seu valor ao longo do tempo. Isso exige uma abordagem integrada que envolva designers, gestores, consumidores, governos e toda a cadeia produtiva. Exige também políticas públicas mais efetivas, como a implementação plena da Política Nacional de Resíduos Sólidos no Brasil, instituída pela Lei 12.305/2010, que estabelece a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos.
No fim, a economia circular representa menos um renascimento e mais uma redefinição do próprio conceito de produção e consumo. A Fênix do século XXI não é aquela que morre para renascer, mas aquela que nunca deixa de existir dentro de um ciclo contínuo. O desafio não está mais em provar que isso é possível, mas em fazer com que deixe de ser exceção e se torne regra. E que os produtos que já existem neste sistema ganhem escala e sejam referências para os outros produtos que ainda estão nascendo e morrendo.
Fontes: Referências
- Ellen MacArthur Foundation. Circularity Gap Report 2023. Disponível em: https://www.circularity-gap.world/2023
- United Nations. Global Resources Outlook 2019. Disponível em: https://www.resourcepanel.org/reports/global-resources-outlook
- Confederação Nacional da Indústria. Economia Circular na Indústria Brasileira. 2024. Disponível em: https://www.portaldaindustria.com.br
- McKinsey & Company. Growth Within: A Circular Economy Vision for a Competitive Europe. 2015. Disponível em: https://www.mckinsey.com
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