Separei várias matérias, estudos e reportagens recentes justamente para olhar esse panorama sem ingenuidade: guerras, pressão por petróleo e gás, backlash anti-ESG, cansaço com greenwashing e, ao mesmo tempo, mais exigência regulatória, mais cobrança de mercado e mais integração da sustentabilidade à estratégia. Quando colocamos essas fontes lado a lado, a leitura fica bem menos emocional e bem mais objetiva.
E o que essa leitura mostra? Mostra que não acabou a sustentabilidade. Não acabou a agenda climática. Não acabou a pressão sobre cadeias, investidores, financiamento e competitividade. O que está acabando, isso sim, é a paciência com o ESG superficial, decorativo, performático, feito para caber em fala bonita, relatório polido e evento de marca, mas sem consequência real na operação, na alocação de capital e na criação de valor. Isso é o que está em xeque.
No SXSW 2026, a provocação “ESG is dead. Now what?” chamou atenção porque capturou exatamente esse desconforto. A cobertura do Meio & Mensagem mostrou que a agenda apareceu em pouco mais de 50 painéis da trilha Cities & Climate, em um ambiente mais técnico e menos dominado por grandes marcas conhecidas do público global. E o próprio painel foi descrito como uma resposta ao backlash que teria esvaziado o ESG como ferramenta de motivação e mensuração, propondo em seu lugar uma abordagem mais ampla, baseada em nature-positive finance. A própria trilha Cities & Climate do festival fala de inovação em sustentabilidade, conservação, climate tech, infraestrutura descarbonizada e impacto social mensurável.
Para mim, o ponto mais importante do SXSW não foi um funeral do ESG. Foi um aviso ao mercado. Um aviso de que o discurso antigo ficou pequeno. Mudança climática, desigualdade, resiliência, infraestrutura, adaptação, pressão tecnológica e novos mecanismos de financiamento não cabem mais em uma agenda tratada apenas como compliance, reputação ou selo. O nome pode até mudar em alguns ambientes. A cobrança por materialidade, coerência e impacto real só aumentou. Isso é o que o festival escancarou.
Agora vem a parte que desmonta muita tese apressada. Mesmo com tensão geopolítica elevada e incerteza econômica, a IEA mostrou que o investimento global em energia em 2025 caminhou para US$ 3,3 trilhões. Deste total, cerca de US$ 2,2 trilhões foram para renováveis, nuclear, redes, armazenamento, combustíveis de baixa emissão, eficiência e eletrificação, o dobro dos US$ 1,1 trilhão destinados a petróleo, gás e carvão. Ou seja, o barulho pró-fóssil existe, mas o fluxo estrutural do capital já está dizendo outra coisa.
Ao mesmo tempo, a contraofensiva também é real. A política energética da Casa Branca em 2025 reforçou o objetivo de “liberar” a energia doméstica americana, com apoio explícito à expansão de recursos energéticos e naturais. Só que, em fevereiro de 2026, a Reuters mostrou que o recuo regulatório sobre gases de efeito estufa gerou exatamente o contrário do que muitos vendem como solução simples: mais incerteza, mais custo potencial e mais dificuldade de planejamento para empresas e investidores. E o próprio mercado segue pressionando por gestão de risco climático, inclusive porque companhias globais continuam submetidas a padrões mais exigentes fora dos EUA. Então não, não basta trocar a narrativa política e decretar o fim do tema.
Na América Latina, a mensagem também é muito clara. A RSM mostrou que 82% das empresas da região já consideram o ESG crítico para as operações, e três em cada quatro tratam mudança climática como prioridade estratégica. No Brasil, o estudo aponta que governança corporativa e gestão de riscos ESG já são prioridade para 85% das empresas. Então vamos parar de tratar sustentabilidade como se ainda fosse uma pauta de nicho ou de militância corporativa. Na prática, ela já entrou no centro do negócio.
O problema, agora, é outro. E talvez mais incômodo. O mesmo material mostra que a execução ainda está atrasada em relação ao discurso. No Brasil, 50% das empresas relatam dificuldade para medir KPIs ESG ou falta de capacidade técnica interna; 34,8% apontam a complexidade dos indicadores como barreira e 28,3% citam falta de equipe qualificada. A fala do Marcelo Conti, da RSM, resume bem: muitas empresas ainda tratam o tema sob a ótica defensiva do risco, e não da oportunidade de negócio. Esse é o retrato de uma agenda que amadureceu na intenção, mas ainda não amadureceu na mesma velocidade na capacidade de entrega.
Em Portugal, o sinal vai na mesma direção. Estudo da Católica-Lisbon repercutido pela imprensa econômica mostrou que 76,8% das grandes empresas e 67,8% das PME já usam os ODS para influenciar diretamente decisões de gestão. Além disso, 96,4% das grandes empresas e 82,6% das PME consideram que práticas sustentáveis aumentam significativamente a competitividade. E 80% das grandes empresas e 62% das PME admitem que a sustentabilidade já alterou, ou está alterando, a forma como produzem e geram valor. Isso não é perfumaria. Isso é estratégia empresarial.
No mercado financeiro, a história fica ainda mais objetiva. Artigo repercutido pelo COPPEAD/UFRJ mostra que empresas de energia com métricas ESG sólidas captam recursos com juros entre 10 e 20 pontos-base inferiores aos de pares “não-ESG”. A sustentabilidade, portanto, deixa de ser apenas um ativo reputacional e passa a funcionar como variável mensurável de eficiência financeira e competitividade. É aqui que muita conversa vazia perde força: quando o tema entra em bancabilidade, custo de capital, garantia financeira e estrutura de risco, já não estamos mais falando de moda.
E há outro ponto importante: a agenda também cresce porque há oportunidade econômica concreta. Reportagem da eixos sobre estudo do Fórum Econômico Mundial mostra mais de 50 oportunidades de investimento com potencial de gerar US$ 10,1 trilhões por ano até 2030, conectando retorno financeiro e preservação da natureza em atividades ligadas a bioeconomia, resíduos e uso sustentável de recursos. Ou seja, a natureza entra cada vez mais no centro da estratégia não apenas por consciência, mas por inovação, produtividade e geração de valor.
Por isso, eu continuo insistindo: ESG não morreu. O que está morrendo é a desculpa de quem não quer mudar. Está morrendo a ilusão de que basta um relatório bonito, um discurso alinhado e uma área isolada para dar conta do recado. Está morrendo a preguiça intelectual de quem olha a polarização política e conclui, de forma simplista, que a sustentabilidade perdeu relevância. Não perdeu. Ela ficou mais dura, mais técnica, mais financeira, mais estratégica e mais exigente.
O mundo segue contraditório. Haverá mais petróleo, mais guerra, mais lobby, mais ruído e mais ataques ao vocabulário ESG. Mas as matérias que separei mostram outra realidade por baixo desse ruído: o capital continua migrando, a competitividade continua sendo impactada, a governança continua sendo pressionada, e as empresas mais maduras continuam integrando sustentabilidade ao coração do negócio. Menos slogan. Mais materialidade. Menos pose. Mais estratégia.
Links e fontes utilizadas
- https://valor.globo.com/financas/esg/artigo/a-nova-era-das-garantias-financeiras-impulsionadas-pelo-esg.ghtml
- https://rhpravoce.com.br/redacao/o-paradoxo-do-esg-85-das-empresas-priorizam-o-tema-mas-falta-braco-tecnico
- https://observador.pt/2026/03/12/sustentabilidade-suporta-decisao-em-77-das-grandes-empresas-e-68-das-pequenas-e-medias-empresas-diz-estudo/
- https://epocanegocios.globo.com/google/amp/especiais/sxsw/noticia/2026/03/o-esg-morreu-especialistas-discutem-no-sxsw-o-futuro-dos-investimentos-de-impacto.ghtml
- https://eixos.com.br/newsletters/dialogos-da-transicao/us-10-trilhoes-para-lucrar-com-a-natureza-sem-degradar/
- https://www.rsm.global/latinamerica/sites/default/files/media/PDF/Landscape%20highlights%20Final%20-%20LATAM%20EN_QA_March.pdf
- https://www.iea.org/reports/world-energy-investment-2025/executive-summary
- https://www.whitehouse.gov/presidential-actions/2025/01/unleashing-american-energy/
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