Bem-vindos à 2026! Vivemos um momento de grande ruído no cenário global.
A volta de discursos nacionalistas, a instabilidade geopolítica, guerras prolongadas, o peso ainda dominante do petróleo na matriz energética mundial e a fragilidade da governança global colocam em dúvida, para muitos, o futuro da agenda de sustentabilidade. Criaram um grupo apartado da ONU para fazer a gestão da Paz. E novas guerras de novo para buscar petróleo e reservas minerais. Some-se a isso o contexto político internacional recente, com posições mais céticas em relação às pautas climáticas e ambientais, e cria-se a narrativa de que o desenvolvimento sustentável estaria perdendo força.
No Brasil, o cenário também parece confuso. Problemas envolvendo instituições financeiras, como o caso do banco Master, ruídos regulatórios, dificuldades na estruturação do mercado regulado de carbono e uma certa insegurança jurídica alimentam a percepção de que o tema ESG estaria andando para trás. Mas essa leitura, embora compreensível à primeira vista, não se sustenta quando olhamos os dados, os fluxos financeiros e as decisões estratégicas que estão sendo tomadas.
Apesar do barulho, o movimento pelo desenvolvimento sustentável continua forte, estruturado e, cada vez mais, integrado à lógica econômica.
A economia verde já é realidade econômica e dados recentes mostram que a economia verde global já alcançou a marca de US$ 5 trilhões. Esse número não é projeção, nem promessa futura. É valor real movimentado hoje, envolvendo setores como energia renovável, mobilidade elétrica, eficiência energética, economia circular, bioeconomia e finanças sustentáveis. Trata-se de um mercado que cresce mesmo em contextos adversos, justamente porque responde a riscos concretos: climáticos, regulatórios, financeiros e operacionais.
Quando investidores direcionam capital para esses setores, não estão fazendo filantropia. Doando dinheiro para salvar o mundo. Não que isso seja um problema. Estão protegendo seus ativos, diversificando riscos e buscando retorno de médio e longo prazo. Esse movimento ajuda a explicar por que, mesmo com guerras, inflação global e juros elevados, os investimentos sustentáveis seguem avançando.
No Brasil, a bioeconomia entra em uma nova fase. O debate deixa de ser conceitual e passa a ser estratégico. O país começa a estruturar políticas, programas e instrumentos financeiros para transformar biodiversidade, ativos naturais e conhecimento tradicional em geração de valor econômico, emprego e renda. A COP30 ajudou a alavancar esta temática com os vários encontros paralelos entre governo, bancos, empresas, Ongs, Academia, empreendedores de impacto, enfim, um caldeirão de ideias, motivação e ações. Tive a oportunidade de ver isso pessoalmente com as várias palestras, reuniões, estandes e projetos em exposição.
A bioeconomia não é apenas um tema ambiental. Ela dialoga diretamente com desenvolvimento regional, inclusão produtiva, inovação e competitividade internacional. Em um mundo que busca reduzir emissões e dependência de combustíveis fósseis, países com ativos naturais e capacidade tecnológica passam a ocupar posição estratégica. Mas sempre com muito cuidado para não voltarmos a sermos extrativistas sem uma base científica e regenerativa.
O governo brasileiro também tem dado passos relevantes ao definir diretrizes de sustentabilidade para programas como o Selo Verde. A iniciativa busca criar critérios claros para identificar produtos, processos e cadeias mais sustentáveis, facilitando o acesso a mercados, financiamento e compras públicas.
Ainda há desafios, sem dúvida. O risco de burocratização excessiva, a necessidade de alinhamento com padrões internacionais e a capacidade de implementação prática seguem sendo pontos de atenção. Mas o fato central é que a agenda está institucionalizada. Sustentabilidade deixou de ser apenas discurso voluntário e passou a integrar políticas públicas e instrumentos econômicos. Passaremos por momentos turbulentos este ano de eleições, Copa do Mundo e muita polarização nas redes sociais. E com certeza teremos ataques de todos os lados para as temáticas do desenvolvimento sustentável. Mas temos que mobilizar os nossos stakeholders para entender o que realmente tem atrás de cada post, de cada artigo, de cada movimento político. Para isso é necessário estudar, entender e debater, sempre!
Ainda temos o caso do mercado brasileiro de carbono que enfrenta críticas e atrasos, mas seu avanço é inevitável. A construção do sistema que viabilizará o mercado regulado de carbono já começou, com definição de bases legais, governança e integração com compromissos internacionais.
Problemas no mercado voluntário, casos de baixa qualidade de créditos e ruídos de confiança não significam o fim da agenda climática. Pelo contrário: indicam amadurecimento. Mercados em consolidação passam por ajustes, correções e maior exigência de qualidade, transparência e governança. Estamos em construção de um novo modelo econômico e de mercado. Imaginem que a consolidação do petróleo ou de outras comodities foram construídas ao longo dos anos. Inclusive a regulação. Estamos vendo isso com os bancos digitais, moedas digitais, redes sociais, energias alternativas, modelos de trabalho, entre tantos outros.
A tendência é clara: emissões passam a ter custo, seja via mercado, via regulação ou via restrição de acesso a capital. E em outros países já existem leis em vigor para os cortes de emissões e metas para eliminação.
Outro dado relevante é que, pela segunda vez, os investimentos globais em energia limpa superaram os investimentos em combustíveis fósseis. Isso ocorre não por ideologia, mas por lógica econômica. Energia renovável, além de mais limpa, tornou-se mais barata, mais previsível e menos sujeita a choques geopolíticos. A Europa está liderando este processo e por isso o posicionamento dos EUA para combater este pensamento e narrativa.
Empresas e países perceberam que segurança energética e transição energética caminham juntas. A dependência de petróleo e gás expõe economias a riscos que vão além do clima. E podem gerar guerras e dependência como a história do mundo conta. A transição é necessária para a soberania dos países.
O sistema financeiro também sinaliza essa mudança. Um terço das instituições financeiras pretende estruturar fundos sustentáveis no curto prazo. Bancos e seguradoras estão cada vez mais atentos aos riscos ESG, não apenas por pressão reputacional, mas por impacto direto em inadimplência, sinistros, precificação de ativos e estabilidade do sistema.
Na Europa, bancos e seguradoras já tratam riscos ESG como riscos financeiros clássicos. No Brasil, esse movimento avança, ainda que em ritmo desigual. A mensagem é clara: sustentabilidade deixou de ser acessória e passou a ser critério de decisão financeira.
O que estamos vendo não é o enfraquecimento do desenvolvimento sustentável, mas sua transição para uma fase mais madura, mais dura, mais quantitativa e menos romântica. O ESG se fortalece, talvez não mais com este acrônimo, talvez voltando para o que era o tripé da sustentabilidade de Elkington ou ainda para um novo acrônimo: GISA – Governança, Impacto Social e Ambiental. A era do discurso fácil, do greenwashing e das promessas vagas está sendo substituída por cobrança, métricas, dados e decisões difíceis. As redes estão de olho, os especialistas e profissionais pelo desenvolvimento sustentável estão acompanhando. Os influenciadores e formadores de opinião estão postando e escrevendo artigos sobre o cuidado que as empresas precisam ter nas suas narrativas vagas, sem dados de impacto real.
Mesmo em um mundo fragmentado, com falhas de governança global, o desenvolvimento sustentável avança porque responde a problemas reais. Clima, energia, alimentos, riscos sociais e estabilidade econômica não são ideologia. São questões práticas. E não são questões ideológicas, são questão de sobrevivência e convívio das pessoas em sociedade.
O desafio agora é transformar intenção em execução. Lá na ONU os líderes globais chamaram agora como a década de ação para a Agenda 2030 com os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. Para empresas, governos e instituições financeiras, a pergunta deixou de ser: “SE” a sustentabilidade importa e “SE” investiremos nisso. A pergunta é “COMO” ela será integrada à estratégia, ao orçamento e à tomada de decisão.
Para quem acompanha este movimento algumas décadas, tenho certeza de que os dados e notícias que trouxe aqui mostram como estamos avançando. Talvez na velocidade que precisamos e que o planeta precisa. Mas se você chegou até esta parte do texto, com certeza alguma esperança podemos ter! Vamos juntos! Avante com o desenvolvimento sustentável.
Referências e fontes utilizadas
- Valor Econômico – Economia verde alcança a marca de US$ 5 trilhões (2026). Disponível em: https://valor.globo.com/patrocinado/dino/noticia/2026/01/02/economia-verde-alcanca-a-marca-de-us-5-trilhoes-1.ghtml
- Valor Econômico – Bioeconomia entra em nova fase e busca mais espaço (2026). Disponível em: https://valor.globo.com/brasil/noticia/2026/02/02/bioeconomia-entra-em-nova-fase-e-quer-ganhar-mais-espaco.ghtml
- Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços – Norma define diretrizes de sustentabilidade para o Programa Selo Verde (2026). Disponível em: https://www.gov.br/mdic/pt-br/assuntos/noticias/2026/janeiro/norma-define-diretrizes-de-sustentabilidade-para-o-programa-selo-verde
- ESG Inside – Brasil inicia construção do sistema que viabilizará o mercado regulado de carbono (2026). Disponível em: https://esginside.com.br/2026/01/30/brasil-inicia-construcao-do-sistema-que-viabilizara-o-mercado-regulado-de-carbono/
- Eixos – Investimentoeixos – Investimento em energia limpa supera combustíveis fósseis pela segunda vez em 2025. Disponível em: https://eixos.com.br/transicao-energetica/investimento-em-energia-limpa-supera-combustiveis-fosseis-pela-segunda-vez-em-2025/
- MSN Brasil – Um terço das instituições financeiras pretende estruturar fundos sustentáveis no próximo ano (2026). Disponível em: https://www.msn.com/pt-br/dinheiro/economia-e-negocios/um-ter%C3%A7o-das-institui%C3%A7%C3%B5es-financeiras-pretende-estruturar-fundos-sustent%C3%A1veis-no-pr%C3%B3ximo-ano-diz-pesquisa/ar-AA1Uscfa
- Diário de Notícias – Bancos e seguradoras alinhados nos riscos ESG. Disponível em: https://www.dn.pt/opiniao/bancos-e-seguradoras-alinhados-nos-riscos-esg
- ÁVILA, Rafael. Guia Visão ESG 2026: tendências, tensões e decisões que moldam a sustentabilidade. Sustentabilidade Agora, 2026. Disponível em: https://sustentabilidadeagora.com.br/ Linkedin: Rafael Avila
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