*Marcus Nakagawa
**Tamara H. Natale de Moraes
Artigo resumido publicado na FOLHA DE SP: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/papo-de-responsa/2026/06/o-poliglota-organizacional-pelo-desenvolvimento-sustentavel.shtml
Abaixo, texto original:
Um dos maiores aprendizados ao passarmos por grandes organizações é a importância de compreender o interesse de cada um dos departamentos da Firma. No modelo organizacional de corporações multinacionais ou de organizações sem fins de lucro bem estruturadas cada departamento terá as suas metas e objetivos que devem (na teoria) chegar ao objetivo final da organização. Para isso temos várias ferramentas de gestão como o Balance Score Card (BSC), por exemplo, que tenta fazer a sinergia e a ligação entre os vários pontos importantes da empresa. É como se fosse um grande quebra cabeças para que todos remem na mesma direção. Para isso os especialistas em trabalho em grupo contam as metáforas do voo dos gansos ou ainda da equipe da canoa havaiana que precisam estar em sincronia para alcançar as metas em comum.
Porém, na vida real, temos que trabalhar com os conflitos de interesses, comunicação truncada ou ainda concorrência para os “carreiristas” de plantão que fazem de tudo para atrapalhar o desempenho de outras áreas que não a deles. Lógico que é bem genérico e não acontece em todas as organizações. Mas para quem está algumas décadas no mercado deve saber muito bem como funciona estes processos.
Quando estamos trabalhando pelo desenvolvimento sustentável não é diferente. Temos que estar a todo momento interagindo com vários profissionais de múltiplas áreas e com metas bem diferentes – e por vezes não necessariamente conectadas com as metas de outras áreas e em casos mais graves, metas distantes dos objetivos das organizações. É importante falar que as organizações colocam os bônus e metas pessoais para motivar as pessoas e para que elas tenham foco. Mas às vezes isso pode atrapalhar se estes profissionais não forem maleáveis e enxergarem com uma visão mais orgânica dos processos.
Na pesquisa da AxiosHQ global de 2024, apenas 14% dos empregados dizem estar totalmente alinhados às metas da organização. No Brasil, a dificuldade de entendimento das metas e da estratégia organizacional está diretamente associada aos desafios da comunicação interna. Segundo a pesquisa Tendências da Comunicação Interna 2025, da Ação Integrada e Aberje, 78% das empresas têm como objetivo criar clareza em torno da estratégia, enquanto 51% apontam ‘comunicar a estratégia e a cultura da empresa’ como um dos principais desafios da área.
Quando estamos falando de sustentabilidade, materialidade e impactos positivos e negativos da organização, temos que interagir com os vários departamentos. E para isso temos que entender os vários idiomas internos como o “financês”, “marketês”, “contabilitês”, “sustentabilitês”, “legalês”, ”RHsês”, “qualidês”, enfim, qualquer “língua” que muitas vezes só o próprio departamento entende e usa deste pequeno poder para mostrar serviço e muitas vezes dificultar os processos na batalha pelo orçamento da área.
Na nossa experiencia de sustentabilidade e responsabilidade social empresarial, tivemos que aprender e entender de todas as áreas, pois os indicadores de ESG são exatamente isso, entender, mensurar e ajudar cada área da empresa trabalhar com as questões ambientais, sociais e de governança. Além de alinhar os objetivos corporativos com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU e de contar com a área de Comunicação Interna que precisa converter toda a estratégia em ações tangíveis e executáveis, criando um senso de coletividade para que os objetivos de sustentabilidade sejam mobilizados dentro das organizações.
No mundo do empreendedorismo de impacto positivo não muda muito. Os empreendedores de impacto precisam saber os “idiomas” técnicos da área de impacto, como por exemplo melhoria da saúde, educação de qualidade, inclusão de mulheres no mercado de trabalho, mensuração de carbono pelo reflorestamento de áreas degradadas, enfim entender o que faz a transição de impacto realmente funcionar. Esta é a linguagem, ou melhor a versão poliglota, que muitas ONGs, gestores de projetos sociais, empreendedores de impacto precisam saber e ser pois este é o foco da transformação social e ambiental que estão desenvolvendo.
Se o empreendimento, por exemplo for da área da saúde, o poliglota terá que falar a mesma linguagem de um médico, enfermeira ou gestor de políticas públicas de saúde. Se o impacto positivo é na educação, o poliglota terá que saber todas as leis e normas do Ministério da Educação, sobre as metodologias de ensino, métricas da BNCC, avaliação de impacto, enfim os principais tópicos da área.
Além desta parte técnica ligada ao impacto, o empreendedor terá que saber as temáticas de gestão empresarial como finanças, qualidade, gestão de pessoas, planejamento estratégico, operações, produção, marketing, comunicação, entre outros, ou seja, todos os fundamentos da administração geral. E aí que entra novamente toda a linguagem do poliglota organizacional e a sabedoria de utilizar estas interações para uma mudança de paradigma.
Provavelmente os investidores de impacto, os patrocinadores ou doadores questionarão não somente a parte técnica, mas também toda a parte de gestão para entender como o dinheiro investido está sendo gerido. E dependendo se a organização tiver que dividir os dividendos ou devolver o investimento de impacto terá que saber sobre o “financês” profundamente.
Lógico que não conseguimos saber de tudo e de todas as temáticas, não seremos “fluentes” em todos os “idiomas” organizacionais ou técnicos de impacto. Então, como alguns autores de empreendedorismo demonstram é fundamental ter uma comunidade ou se cercar de bons profissionais que consigam “traduzir” e conversar sobre estes temas. Para o empreendedor solitário ou a ONG de um indivíduo, fica complicado. E é aí que ter bons amigos e conselheiros ativos e responsáveis é fundamental.
Seja dentro de uma corporação trabalhando com o ESG e sustentabilidade corporativa, ou empreendendo uma organização de impacto positivo é fundamental que os profissionais pelo desenvolvimento sustentável sejam cada vez mais poliglotas organizacionais conhecendo os “idiomas” básicos dos departamentos, áreas da administração geral e a parte técnica do impacto positivo. Assim a busca pelo desenvolvimento sustentável deixa de ser somente dos ECO-chatos, dos BioDesagradáveis e dos SocialBoring. A linguagem estará adaptada ao mundo das organizações e empresas para a verdadeira transformação social e ambiental.
Fontes: https://www.axioshq.com/insights/2024-state-of-internal-communiations-report?utm
* Marcus Nakagawa é professor da ESPM; coordenador do Centro ESPM de Desenvolvimento Socioambiental (CEDS); idealizador e presidente da Abraps; idealizador da Plataforma Dias Mais Sustentáveis; e palestrante sobre sustentabilidade, empreendedorismo e estilo de vida. Autor dos livros: Marketing para Ambientes Disruptivos e 101 Dias com Ações Mais Sustentáveis para Mudar o Mundo (Prêmio Jabuti 2019).
**Tamara Natale de Moraes é consultora e professora nas áreas de Comunicação, Consumo, Sustentabilidade e Estudos de Futuros. Possui 19 anos de experiência em empresas multinacionais e nacionais. Doutoranda em Comunicação e Práticas do Consumo pela ESPM, voluntária do Centro ESPM de Desenvolvimento Socioambiental (CEDS) e líder de Comunidade do Hub ESPM de Tendências e Futuros Sustentáveis.
https://www.linkedin.com/in/tamaranatale/
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